Com o objectivo de tratar crianças com problemas cardíacos, criam-se famílias intercontinentais, com laços inquebráveis. Concerto em Ílhavo em prol de quem trabalha “Movido por Paixões”.
São crianças com corações a precisar de ajuda. Corações que se não receberem tratamentos adequados correm o risco de não bater o tempo que merecem.Depois de tratados, batem no ritmo certo. Bombeiam vida aos pequenos guer reiros que deixam famílias e amigos para trás, e enfrentam um novo país. Deixam-se ir para o desconhecido, por vezes, sem sequer terem entrado, na idade dos porquês.
O projecto “Esperança”, da Missão Saúde para a Humanidade (MSH) iniciou-se em Agosto de 2009 e tem como objectivo acolher crianças doentes, provenientes da Guiné-Bissau que, sem condições para serem tratadas no seu país, necessitam de ser evacuadas, para receber os tratamentos adequados. Até ao momento, foram 38 as crianças que viram o coração ganhar um novo impulso, e o objectivo é não parar.
“Movidos por Paixões”. O conceito é simples. Ajudar crianças que precisam de ser operadas ao coração. Recorrendo à vontade de ajudar, e a alguns protocolos que permitem custear o projecto, as crianças chegam a Portugal rumando ao Hospital S. João, no Porto, onde são tratadas. O lema não podia ser mais apropriado: “Movidos por Paixões”.
A Guiné foi escolhida depois de uma visita feita por alguns dos actuais membros da MSH que, deparando-se com a falta de condições de apoio médico, decidiriam agir, criando a organização com sede na Incubadora de Empresas da Universidade de Aveiro. As crianças são seleccionadas por uma ONG (Organização Não Governamental) espanhola que faz o acompanhamento dos casos e os encaminha para evacuação, consoante a urgência. No regresso à Guiné, é essa ONG que faz o acompanhamento das crianças.
Enquanto estão internadas, as crianças recebem visitas diárias. Os voluntários da organização não deixam passar um dia sem lhes dedicar algum do seu tempo. A maioria delas chega sem falar português, o que dificulta a adaptação. “São casos complicados, mas são casos de sucesso”, orgulha-se Ana Fonseca, membro da direcção, voluntária, e “mãe” – que se poderia escrever sem aspas – de algumas crianças que já passaram pelo projecto.
“Soltar um passarinho e fazê-lo voar”
Acompanhada de duas das cinco crianças que se encontram a receber tratamentos
Ana partilha um pouco da sua experiência. “A despedida da primeira criança que recebi em minha casa foi traumatizante. Mas é também um sentimento de missão cumprida. É como soltar um passarinho e fazê-lo voar. É sempre doloroso porque vai-se embora um bocadinho de nós. São nossos filhos, mas também por isso é bom sinal eles irem”, conta, num misto de emoção e orgulho.
Casa de acolhimento é urgente
Quando uma criança chega, vem sem data de regresso marcada.
O regresso à Guiné só acontece depois dos problemas serem debelados. “Há crianças que ficam apenas um ou dois meses. Há outros que têm de ficar mais tempo. Nós queremos que os casos sejam resolvidos o mais depressa possível, mas sem pressas”, defende Ana.
Depois de saírem do hospital, as crianças vão para famílias de acolhimento, compostas por pessoas ligadas à organização. O desejo é ter, num futuro que se quer próximo, um espaço onde as crianças possam ficar, durante a estadia em Portugal.
“Precisamos muito de uma casa de acolhimento. É o próximo projecto que queremos concretizar. A casa faz-nos falta para podermos continuar a missão. Assim poderíamos trazer muito mais crianças e mantê-las juntas no mes mo espaço. A casa, juntamente com as famílias de acolhimento, possibilitar-nos-ia duplicar o número de crianças a ajudar”, acredita.
Adelino e Sarah: dois corações tratados
Adelino Pedro Mendes, de 17 anos muito mal disfarçados, tem cara e corpo de menino. E a timidez, também. Está em Portugal há três anos, e foi operado duas vezes. Enquanto fala connosco é raro levantar os olhos. Até o sorriso é tímido. Adelino vai frequentar o 9.º ano, na escola João Afonso, e afirma ter “muitos amigos”. Refere que isso, para além da família de acolhimento, é o melhor de Portugal.
Depois de tanto tempo, Adelino diz que se imagina a viver no país que o acolheu, e que quando voltar à Guiné, onde se mantém a mãe, vai ter saudades “de todos os amigos que fiz, e da família de cá”, afirma.
Sarah Sanca, de 13 anos é quase o oposto do colega. Por detrás do sorriso desinibido com que se apresenta, está o facto de ter sido a única criança que teve de voltar a Portugal depois de uma primeira operação. A primeira vez que veio não foi trazida pela MSH, agora sim, está no país há um ano. E já foi operada duas vezes nesse período. Entretanto debate-se com sentimentos contraditórios, provavelmente, comuns a muitos dos compatriotas quetêm recebido esta ajuda. “Gosto de estar cá, mas também gostava de estar na Guiné, porque tenho lá a minha família. O ideal seria poder receber os tratamentos na Guiné, para estar perto deles. Ou trazê-los todos para cá, porque em Portugal a vida é melhor”, reconhece. Entre o ir e o partir criam-se laços de vida. E criam-se, também, laços para a vida. As despedidas apertam os corações que vão, e aqueles que ficam.
Mas uma certeza existe. O coração que vinha doente volta mais forte. Vai apertado de saudade, sim. Mas também vai tratado. Isso é o mais importante. Essa é a missão.
Concerto “MSH Movidos por Paixões” amanhã, em Ílhavo
O Centro Cultural de Ílhavo (CCI) abre as portas, amanhã, para um concerto cujas receitas reverterão para a MSH. Darko e Emmy Curl associam os seus nomes a esta causa, num espectáculo que custará 10 euros, e com início às 22 horas. Os dois artistas portugueses darão um concerto que utiliza o lema “MSH Movidos por Paixões”, e será uma forma de angariar fundos para a causa da Missão. Será a forma de a música dar o ritmo aos corações ajudados pela MSH.
Por Adérito Esteves
Notícia publicada no Diário de Aveiro em 2013-09-12
